Coccidiose em galinhas

Espécies selecionadas

Causas, sinais clínicos, prevenção e tratamento da coccidiose em galinhas e outras espécies aviárias.

A coccidiose avícola é uma das doenças mais comuns no mundo. Ela gera perdas econômicas devido à mortalidade, redução do peso corporal e despesas relacionadas ao controle preventivo e terapêutico enquanto também predispõe as aves à enterite necrótica. A coccidiose está entre as doenças de maior impacto econômico na produção avícola, com um custo anual estimado em 12 bilhões de euros para o setor (Blake et al., 2020).

Figura 1: O ciclo de vida da Eimeria. A Eimeria causa coccidiose em galinhas e outras espécies de aves.

Causas

A coccidiose é causada por parasitas protozoários do gênero  Eimeria. Trata-se de parasitas intracelulares obrigatórios com ciclos de vida complexos, incluindo estágios sexuais e assexuados. Nas aves, a Eimeria afeta o intestino tornando-o propenso a outras doenças (enterite necrótica) e reduzindo a capacidade desse órgão de absorver nutrientes.

As práticas modernas de produção avícola facilitam a distribuição dessa doença dentro dos aviários. Entre os aviários, a doença é transmitida por portadores mecânicos, tais como insetos e aves silvestres. Embora os ovos de Eimeria (oocistos) possam ser transportados mecanicamente por aves silvestres, esses parasitas são específicos do hospedeiro e, portanto, as aves silvestres não servem como reservatório biológico.

O ciclo de vida da  Eimeria começa com a ingestão de oocistos maduros. Cada oocisto infeccioso é formado por quatro esporocistos e, por sua vez, cada esporocisto contém dois esporozoítos. Os sais biliares e a quimotripsina estimulam a liberação dos esporozoítos do oocisto. Uma vez liberados, os esporozoítos invadem as células intestinais iniciando o estágio de desenvolvimento assexuado chamado esquizogonia. Após um número variável de ciclos assexuados, os gametas são formados e o estágio sexual de desenvolvimento começa (gamogonia). A fase sexual termina com a produção e liberação de oocistos no lúmen intestinal. Uma vez no ambiente, os oocistos devem esporular para se tornarem infecciosos. O processo de esporulação geralmente leva de 2 a 3 dias dependendo das condições ambientais (Waldenstedt et al., 2001).

Imunidade

Em geral, uma boa imunidade natural é gerada após infecções por Eimeria em aves. Por essa razão, a coccidiose é geralmente uma doença que afeta animais jovens. No entanto, a imunidade alcançada é específica para cada uma das espécies de Eimeria e não é de proteção cruzada entre espécies (com exceção de alguma proteção cruzada entre E. maxima e E. brunetti). Além disso, a proteção cruzada entre cepas da mesma espécie é muitas vezes parcial (Long, 1974), o que é uma preocupação prática para a seleção e uso de vacinas vivas contra Eimeria em diferentes localizações geográficas.

Sinais clínicos de coccidiose em aves

As características das lesões dependerão das espécies de Eimeria que afetam o intestino. Dados de diagnóstico importantes para determinar qual espécie de Eimeria está afetando um determinado lote incluem:

  • Localização
  • Aspecto
  • Gravidade das lesões

Espécies mais comuns de  Eimeria em aves: 

  • E. acervulina
  • E. brunetti
  • E. maxima
  • E. necatrix
  • E. tenella
  • E. adenoeides
  • E. meleagrimitis

E. acervulina

Essa espécie de Eimeria encontra-se amplamente distribuída na avicultura comercial. A mortalidade pode resultar de infecções graves, mas, muitas vezes, as reduções no ganho de peso e na pigmentação da pele (devido a uma absorção intestinal reduzida) são as características predominantes da Eimeria acervulina.

Achados de necropsia da E. acervulina

As lesões de Eimeria acervulina se localizam no intestino delgado. Em infecções leves, as lesões geralmente se concentram no duodeno, mas em infecções pesadas as lesões podem se estender para além do duodeno e para o resto do intestino delgado. 

As lesões podem ser observadas da superfície serosa do intestino como placas brancas que tendem a se organizar formando estrias transversais no duodeno. A mucosa intestinal pode ser espessada e pode ser coberta por líquido claro.

E. maxima

Nomeada devido ao grande tamanho de seus oocistos, a Eimeria maxima é moderadamente patogênica. Ela causa perda de peso corporal e diminui a pigmentação da pele devido à absorção reduzida de pigmentos por causa de danos intestinais.

As aves podem estar emaciadas devido à redução da ingestão de ração, juntamente com a má absorção de nutrientes. Alguma mortalidade pode ser observada em casos graves.

Achados de necropsia da E. maxima

A Eimeria maxima coloniza preferencialmente a porção média do intestino delgado, mas em casos graves as lesões podem cobrir totalmente o intestino delgado. O lúmen do intestino pode conter muco alaranjado e sangue e, em infecções graves, a mucosa pode estar seriamente danificada.

E. brunetti

Essa espécie de Eimeria pode induzir piora da conversão alimentar, redução do ganho de peso e mortalidade moderada em infecções graves. Em casos graves, as fezes podem estar manchadas de sangue.

Achados de necropsia da E. brunetti

A Eimeria brunetti localiza-se preferencialmente no íleo, mas em casos graves as lesões se estendem para o intestino grosso e para as porções superiores do intestino delgado. 

As infecções leves são caracterizadas por espessamento da mucosa intestinal e presença de petéquias na parte inferior do intestino delgado. 

Em casos graves, as vilosidades são quase totalmente desnudadas e a mucosa do intestino delgado pode ser extremamente danificada e necrótica.

E. necatrix

Essa espécie de Eimeria é altamente patogênica em galinhas e é frequentemente observada em aves de 9 a 14 semanas de idade (McDougald e Reid, 1991). Mortalidade, perda severa de peso e fezes com sangue e muco são achados frequentes.

Achados de necropsia da E. necatrix

A Eimeria necatrix produz lesões na porção média do intestino delgado. O intestino geralmente fica dilatado e contraído em alguns locais, com aparência de balão, e o lúmen geralmente contém sangue, restos de mucosa e líquido. As lesões podem ser vistas na superfície serosa como pontos brancos e escuros que geralmente são descritos como tendo uma aparência de “sal e pimenta”.

E. tenella

Essa espécie de Eimeria  é altamente patogênica para galinhas. A E. tenella  afeta principalmente o ceco causando lesões grandes. Alta mortalidade, severa perda de peso e fezes manchadas de sangue são achados frequentes. A severa perda de peso é comum e, em comparação com lotes saudáveis, os lotes afetados geralmente não conseguem compensar a perda de peso após o controle da doença.

Achados de necropsia da E. tenella

A E. tenella  produz hemorragia em ambos os cecos que é acompanhada pela presença de pontos brancos (esquizontes e oocistos) que podem ser vistos da superfície serosa. A Eimeria tenella  penetra profundamente no tecido intestinal produzindo grandes danos na mucosa e na camada muscular. O lúmen cecal é preenchido com sangue coagulado e detritos necróticos da mucosa.

E. adenoeides

Para os perus esta espécie de  Eimeria  é muito patogênica. Ela pode produzir mortalidade e importante perda de peso. As fezes podem estar manchadas de sangue e podem conter muco.

Achados de necropsia da E. adenoeides

A Eimeria adenoeides normalmente afeta o ceco, mas as lesões podem se estender para as porções circundantes do intestino. Os cecos são encontrados edemaciados, distendidos e preenchidos com material que endurece em um núcleo caseoso após vários dias da infecção inicial.

E. meleagrimitis

A Eimeria meleagrimitis afeta a porção superior do intestino delgado, mas também pode afetar as regiões inferiores em infecções severas. Menos patogênica que a E. adenoeides, a E. meleagrimitis pode produzir desidratação, perda de peso e alguma mortalidade em infecções graves.

Achados de necropsia da E. meleagrimitis

O duodeno pode parecer congestionado e seu lúmen estar cheio de muco e líquido. A hemorragia é rara, mas possível.

As micotoxinas agravam a coccidiose

As micotoxinas em rações para aves, mesmo em níveis baixos, agravam a incidência e a gravidade da coccidiose em galinhas, patos e perus. Elas podem facilitar a colonização de Eimeria no intestino, e os produtores de aves que procuram reduzir o impacto da coccidiose em seus lotes fariam bem em monitorar a contaminação da ração.

Sabe-se que o desoxinivalenol e as fumonisinas interferem em várias funções vitais das células e perturbam as células intestinais que atuam como barreira entre os patógenos e o organismo das aves. Esses componentes celulares intestinais rompidos podem ser usados como substrato de crescimento para patógenos, tais como Eimeria, Clostridium e Escherichia coli.

Dessa forma, essas micotoxinas desempenham um papel principal como “abridores de portas”, favorecendo a colonização de patógenos em todo o hospedeiro.

O escore de lesões no ceco foi de 1,33 para os grupos de micotoxinas versus 0,42 para as aves alimentadas com dietas de controle (Grenier et al., 2016). 

Mesmo em concentrações baixas (Tabelas 1 e 2), desoxinivalenol, fumonisinas e uma combinação dos dois podem piorar a incidência e gravidade da coccidiose em aves desafiadas, mostraram estudos.

Galinhas alimentadas com ração contaminada com micotoxinas em níveis baixos nas dietas inicial e de crescimento (Tabela 2) apresentaram escores de lesões consideravelmente mais altos, números mais altos de oocistos no jejuno e nas fezes e contagens mais altas de linfócitos (glóbulos brancos).

Prevenção e tratamento

Na produção avícola, vários antimicrobianos ou antiprotozoários têm sido utilizados há décadas para  tratar e prevenir  a coccidiose. Dependendo do tipo de produção avícola, as abordagens para um controle eficaz da coccidiose são diferentes.

Métodos de prevenção ou tratamento da coccidiose:

  • Coccidicidas
  • Coccidiostáticos
  • Vacinas vivas
  • Probióticos
  • Vacinas mais probióticos

Coccidicidas

Devido ao curto ciclo de vida de um frango de corte, o programa preventivo de coccidiose usado geralmente visa eliminar completamente a Eimeria do intestino usando coccidicidas que matam os parasitas. Isso resulta em condições ideais do trato gastrointestinal, melhorando o peso corporal e reduzindo a conversão alimentar (McDougald e Reid, 1991).

Coccidiostáticos

Em matrizes e poedeiras, geralmente é necessária uma abordagem diferente. Devido ao ciclo de vida relativamente longo dessas aves, o desenvolvimento de imunidade protetora é desejado. Para esse propósito, é permitido um grau mínimo de exposição à Eimeria.

Para atingir esse objetivo, os coccidiostáticos são usados para interromper o desenvolvimento dos parasitas em diferentes estágios de desenvolvimento, permitindo um bom equilíbrio entre danos intestinais e exposição adequada para o desenvolvimento da imunidade. Naturalmente, uma vez que os coccidiostáticos são retirados da dieta, os parasitas infectantes podem retomar seu ciclo de vida produzindo as manifestações clínicas da doença (McDougald e Reid, 1991).

Resistência aos anticoccidianos

Independentemente dos medicamentos selecionados para o controle e tratamento da coccidiose, é importante considerar que os parasitas Eimeria desenvolvem resistência aos medicamentos. A resistência é muito maior se a mesma família de antimicrobianos for usada por muito tempo em uma área determinada. A pressão seletiva favorecerá os poucos parasitas, dentro de uma população, que são resistentes e, em poucos ciclos de criação, os parasitas iniciais aumentariam o tamanho da população para números capazes de induzir doenças clínicas em um lote.

Programas de rotação dual (shuttle)

Uma prática comum para resolver parcialmente esse problema é usar programas anticoccidianos de rotação dual (shuttle), que alternam entre diferentes períodos da vida da ave. Esse método tem uma boa chance de eliminar os parasitas que demonstraram resistência a um único antimicrobiano. Uma variação do mesmo princípio é a rotação, que consiste em mudar os coccidiostáticos entre os lotes (Chapman, 2001).

Probióticos

Uma grande proporção dos danos induzidos na coccidiose é atribuível à perda de peso  corporal. Parte das perdas de peso corporal pode ser explicada devido à absorção abaixo do ideal de nutrientes no intestino derivada da destruição do epitélio durante e após a infecção por Eimeria .

Outro componente das perdas de peso corporal pode ocorrer devido ao desenvolvimento de inflamação excessiva no trato gastrointestinal. Modelos experimentais de infecções bacterianas  demonstraram que 41% das perdas de peso corporal são causadas por inflamação induzida por  lipopolissacarídeos. Nesse modelo, o uso de  PoultryStar®  aliviou 17% da depressão do crescimento, provavelmente por diminuir a quantidade de nutrientes direcionados ao processo inflamatório e, assim, aumentar os recursos direcionados ao aumento do peso corporal (Jiang et al., 2009).

Vacinas vivas

O uso de vacinas vivas também é comum em reprodutoras de frangos de corte e poedeiras. A estratégia com a vacinação é usar cepas precoces que sofrem apenas alguns ciclos de replicação no intestino aviário antes da eliminação de oocistos ou usar cepas atenuadas e dosagem controlada induzindo menos danos ao trato intestinal do que uma cepa de campo (McDougald e Reid, 1991).

A vacinação pode induzir algumas reduções no peso corporal quando comparada aos grupos não vacinados que usam drogas anticoccidianas (Chapman et al., 2002).

Programas anticoccidianos baseados no uso de produtos químicos, ionóforos e vacinas seguem essenciais, mas exigem novas estratégias de rotação e manejo cuidadosos, diante da resistência gerada, de novas regulamentações e da demanda por menor uso de antimicrobianos. Reforçar o programa vigente com uma solução de origem natural que se some às ferramentas anticoccidianas já utilizadas.

Chapman, H.D. 2001. Uso de drogas anticoccidianas em frangos de corte nos EUA: análise para os anos de 1995 a 1999. Poult. Sci. 80:572-580.

Chapman, H.D., T.E. Cherry, H.D. Danforth, G. Richards, M.W. Shirley, e R.B. Williams. 2002. Controle sustentável da coccidiose na produção avícola: O papel das vacinas vivas. Int. J. Parasitol. 32:617-629.

Dalloul, R.A., H.S. Lillehoj, T.A. Shellem, and J.A. Doerr. 2003. Imunidade aumentada da mucosa  contra Eimeria acervulina em frangos de corte alimentados com um probiótico à base de Lactobacillus. Poult. Sci. 82:62-66.

Jiang Z., G. Schatzmayr, M. Mohnl, and T.J. Applegate. 2009. Efeito líquido de uma resposta de  fase aguda: Alívio com suplementação de probióticos. PSA abstracts, North Carolina, USA.

Jang, S.I., M. Jun, H.S. Lillehoj, R.A. Dalloul, I. Kong, S. Kim, e W. Min. 2006. Efeito anticoccidiano de dietas à base de chá verde contra Eimeria maxima. Vet. Parasit. 144:172-175.

Klein, A., J. Lee, M. Farnell, L. Oden, S. Pohl, K. Stringfellow, M. Mohnl, R. Beltran, G. Schatzmayr, S. Fitz-Coy, C. Broussard, e D. Caldwell. 2009. Efeitos da  administração de probióticos durante a vacinação contra coccidiose no desempenho de frangos de corte expostos à cepa de campo Eimeria: Comparação com a administração de monensina. PSA abstracts, North Carolina, USA.

Lee, S.H., H.S. Lillehoj, R.A. Dalloul, D.W. Park, Y.H. Hong, e JJ. Lin. 2007. Influência de probióticos à base de  Pediococcus na coccidiose em frangos de corte. Poult. Sci. 86:63-66.

Long, P.L. 1974. Infecção experimental de galinhas com duas espécies de Eimeria isoladas  de aves selvagens da Malásia. Parasitologia 69:337-347.
McDougald, L.R. and W.M. Reid. 1991. Coccidiose. In: Doenças de Aves, nona edição. Iowa State Press, Iowa.

Waldenstedt, L., K. El winger, A. Lunden, P. Thebo, and A. Uggla. 2001. Esporulação  de oocistos de Eimeria maxima em detritos com diferentes teores de umidade. Poult. Sci. 80:1412-1415.

Williams, R.B. 1999. Um modelo compartimentado para a estimativa do custo da  coccidiose na indústria mundial de produção de frangos. Int. J. Parasitol. 29:1209-1229.

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